Carro de boi


Fiquei muito surpresa e, confesso, meio emocionada em avistar um boi enorme desses, com chifres intactos e tudo, puxando essa espécie de carroça. Estávamos no ramal do Pau Rosa, eu e meus amigos Eleonora e Felipe (dois passarinheiros de primeira) quando me deparei com essa cena. Já vi muita coisa no Amazonas, mas não esperava encontrar um carro de boi. O dia (02-10) apenas amanhecia e lá vinha ele, lentamente, pela estrada (ramal). E o mais engraçado é que, apesar de toda a rusticidade, o dono do carroção improvisou uma placa de veículo na parte de trás. Rendeu uma boa foto.

Beleza


No último domingo, antes mesmo de o sol sair, já estava na rua para fotografar pássaros, com minha amiga Léo. Dentro de Manaus ainda há muitos resíduos de mata e neste, relativamente perto de casa, fotografei essas belas araras-vermelhas, ou araracangas. Deram um show com voos curtos e com seu canto forte. E foi maravilhoso assistir...

Seis meses em Manaus


No próximo dia 22 de agosto faz seis meses que estou em Manaus. Um período que se mostrou precioso para mim. Quando decidi, efetivamente, me dar um tempo - coisa que eu nunca tinha feito - não imaginava como seria bom e proveitoso. É claro que largar emprego, amigos (nem tantos assim) e família não é fácil. Dá saudades, sim. Sentimentos de arrependimento e de coragem se alternam antes de bater asas.
Mas daqui de fora vi como somos condicionados a muita coisa pela educação que recebemos em casa e fora dela, na escola, no clube, na roda de amigos, enfim, de gente que te quer bem e de gente que não te quer bem. E pior que isso: tinha (temos) a mania de quando não entendia algo, deduzia. E aquela dedução virava verdade absoluta. Mesmo que falsa.
Este tempo distante daquele meu mundo está me dando a chance de enxergá-lo. Preocupei-me demais com o que não deveria, amei de menos do que deveria. E falo de amor na sua forma mais plena. Li menos do que queria, fui pouquíssimas vezes ao cinema, escrevi pouco, pouco mais que nada. Vi menos a quem queria ver do que precisava.
Passeei pouco e quando fui, fiquei mais preocupada com o que ficava.
E hoje aprendi a não me arrepender do que não fiz, porque aprendi a aprender com o que vivi. Ou não vivi. E mais: aprendi a sentir mais o que desejo. Jamais li como tenho lido, jamais fui ao cinema como tenho ido, jamais assisti a filmes em casa como tenho assistido. Jamais passeei como tenho passeado. Longos passeios? Não. Por vezes apenas uma visita ao centro da cidade, ao porto, ao teatro. E de ônibus.
Tenho outros seis meses aqui, dentro do planejei, quero e pretendo realizar. Ter amigos em Manaus e me incorporar ao grupo de amigos deles me facilitaram muito as coisas. Serei eternamente grata a todos. Já não sou mais a mesma pessoa. Estou melhor para mim mesma. E ainda tenho muito, mas muito, que caminhar.
Muitos dos meus amigos me abordam (a internet facilita demais as coisas) e dizem sonhar, um dia, em dar um tempo para si mesmos. Pois digo que isto deveria ser uma regra, algo mais do que natural, algo mais do que previsto. Não se perde nada em caminhar ao encontro de si, olhar-se sem medo do que vai ver. As pessoas à nossa volta não deveriam temer esse momento. Deveriam compreender se nos amam. Não há qualquer insanidade.
Temos – e me permita generalizar pelo tempo do verbo - o costume de carregar coisas a mais do que necessitamos, comprar a mais do que temos capacidade de usar e comer. Subir morros com caixas pesadas nas costas. Amar menos do que devemos. Temos o péssimo costume de buscar respostas fora de nós mesmos, de culpar quem está ao nosso lado. De apontar o dedo.
Viver bem é tão fácil e é urgente entender por que complicamos tanto.
Ah! E descobri que dormir na rede é milhões de vezes melhor do que na cama.

Reciclando...


Barco e rede, depois de cumprirem suas funções originais nos rios do Amazonas, servem de canteiro para horta, no ramal do Pau Rosa, arredores de Manaus.

Palácio da Justiça







Vizinho pela parte de trás do Teatro Amazonas está o Palácio da Justiça, construído entre 1894 e 1900. De linha arquitetônica clássica, mistura influências do neoclassicismo francês e inglês, com um pouco do renascimento italiano. O prédio forma, segundo informações oficiais, junto com o teatro, o mais importante conjunto arquitetônico de Manaus.
Também está aberto à visitação pública das 9 às 17 horas, e é gratuita. Monitores acompanham os grupos ou apenas uma pessoa, como foi meu caso. Destaco, na foto, um tinteiro em prata, trazido da França. Lindo. Na primeira foto deste post, o Palácio da Justiça visto dos jardins do Teatro Amazonas. Se for até lá, explore detalhes da arquitetura e ângulos de visão.

Um mundo de água e selva







Manaus talvez seja a mais brasileira das capitais. Escorada pela selva e banhada pelas águas do rio Negro, a presença de índios de muitas etnias do Amazonas, são 64 contatadas e 13 ainda não contatadas, pelas ruas da cidade dão uma ideia do caldo cultural que é a sua vida cotidiana. Lado a lado, indígenas aculturados e nordestinos formam a grande massa humana que povoa o centro da cidade, entre vendedores ambulantes, artesãos e carregadores de gelo na área portuária de Manaus.
Dois alto-falantes (no alto das ruínas de prédios antigos) da Rádio Comunitária Fluvial anunciam chegadas e partidas de barcos, tocam música e tentam passar informação inteligível no ruidoso vai-e-vem de pessoas, carros e ônibus. Passear a pé pelo centro é uma experiência sociológica. Sentar-se à sombra de uma árvore e observar o movimento é impagável.
Praticamente todas as ruas centrais estão tomadas pelo comércio ambulante, que convive porta a porta com lojas de produtos populares, e, nem tanto. Há lojas de calçados, bijuterias finas, decoração, agências bancárias e até lojas de grandes redes de supermercados. Uma convivência difícil de imaginar no Sudeste do País. Para o pedestre, resta uma passagem no centro da calçada. Mas é possível passar com tranquilidade. O mais difícil é driblar vendedores das próprias lojas, que adotam o marketing dos ambulantes e soltam a voz com suas ofertas.
Da mesma forma que o olhar se depara com as lonas amarelas, vermelhas e azuis das barracas, em meio a tudo isso saltam prédios históricos belíssimos, que não só mostram a riqueza da Manaus antiga (Manaós), mas também do próprio Brasil. O centro histórico é de rara beleza. Prédios como o da alfândega, trazido desmontado da Europa, o da catedral de Nossa Senhora da Conceição, do porto e do Mercado Municipal de Manaus (em fase de recuperação), dão uma ideia do que foi a cidade na época áurea da borracha, há pouco mais de cem anos. O relógio municipal cuja torre foi edificada sobre pedra e alvenaria é alemão e tem lugar de destaque na calçada da praça da catedral; ainda marca a hora certa e é referência como ponto de encontro. No centro também há uma feira permanente de artesanato, frequentada obviamente por turistas. Ali é possível comprar bijuterias feitas com pedras, sementes, escamas do peixe Pirarucu, fibras naturais, cestos, remos decorativos, artefatos indígenas, camisetas e miniaturas em madeira, geralmente nobres, como o Pau Brasil. O preço não chega a assustar. A máscara em primeiro plano, da foto acima, é confeccionada com escamas de Pirarucu, sementes naturais e tingidas e a boca é da Piranha.
Para almoçar, há vários restaurantes e escolher um deles não é difícil: procure ver se há frequência de funcionários das lojas e dos prédios administrativos, como o do Ministério da Fazenda, que fica em frente ao porto. Uma enorme placa afixada (foto acima) na área interna do porto, com uma frase do poeta amazonense Thiago de Mello, resume em poucas palavras o que é a Amazônia.